De todas as carreiras, o ator sabe que a sua profissão é a
que mais exige preparação corporal e
mental para ocupar a cena. É necessário esforço, dedicação, força de vontade e
disciplina para enriquecer não só o intelecto, mas educar o corpo para ampliar
e melhorar sua expressividade corporal, vocal
e capacidade de comunicação. Para o ator, comunicação não significa
apenas saber usar a voz e saber falar para o público. Tem a ver com energia,
gestualidade e expressão física e emocional.
Para tirar o maior proveito de seu corpo, que é o seu
“principal instrumento de trabalho”, o ator tem procurado os mais diferentes
meios e técnicas para preparar seu corpo e voz para a arte da representação.
Aulas de canto, yoga, pilates, exercícios ginásticos e respiratórios, balé,
bandoneon, música, contato-improvisação, dança. São práticas artísticas
benéficas que melhoram não só sua capacidade respiratória, sua postura
corporal, seu tônus muscular, como sensibilizam e preparam seu corpo para a
ação cênica.
A maioria das escolas de teatro tem em seu programa
curricular a disciplina “expressão
corporal”. A finalidade desta disciplina, não é só revelar ao aluno, aspirante
a ator o que ele não conhece de seu corpo, mas fazê-lo aprender a reeducar seus
movimentos, sua postura, sua flexibilidade e sensibilidade para assim alcançar
sua própria consciência corporal e equilíbrio para a atuação.
Confesso que ao começar a ter aulas de expressão corporal
na escola de teatro, me pareceu estranho e doloroso todo o esforço físico,
vocal, muscular e respiratório que a disciplina exigia. Faziamos muitos
exercícios físicos desgastantes em sala, como correr alopradamente de um lado
para outro, congelar, saltar, pular, dar cambalhotas, parar, gritar, reagir a
estímulos exteriores e lidar com objetos materiais que nos eram oferecidos. Com
o tempo comecei a perceber a importância destas aulas de corpo e passei a
usufruir de seus benefícios.
Eu lembro que, na época, estava tendo dificuldades
corporais para trabalhar com o texto “Navalha na carne” de Plínio Marcos. Eu
interpretaria a prostituta Neusa Sueli. A dificuldade não envolvia o
entendimento da peça, e não tinha também nada a ver com o trabalho de direção.
Tinha a ver com minha expressão corporal e vocal. Ainda não tinha encontrado a
postura teatral da minha personagem. Sua
gestualidade. Estava distraída, com uma
concentração deficiente e com a visão e audição pouco treinadas no
espaço/universo teatral. Ao longo do semestre, graças ao preparo corporal e
vocal nesta disciplina, eliminei estes problemas na atuação e encontrei minha
personagem. Seu aspecto físico, sua atitude em face da vida, suas motivações,
seu aspecto social e psicológico. Enfim os traços essenciais do personagem para
a ação. Neste sentido, dentro da escola teatral, a disciplina de consciência
corporal foi muito importante para o meu preparo físico e aprendizado no treino
interpretativo.
Aprendi com esta disciplina, a respirar melhor, a ter uma
postura mais adequada ao meu trabalho como atriz. Aprendi a me concentrar em
cena. No que faço e como faço. Graças a esta disciplina passei a me sentir mais
atenta ao espaço que meu personagem ocupa no espaço da trama. Consequentemente
meu repertório de movimentos se enriqueceu com este preparo físico. Minha
capacidade de audição e visualização se fortaleceram sensivelmente. Não consigo
subir ao palco e ficar indiferente ao que está acontecendo nele. Ao menor
ruído, gestos e estímulos do ambiente meu corpo reage sensivelmente. Com o “corpo treinado e preparado” estou mais
predisposta a estabelecer e manter vínculos com tudo o que descubro nos ensaios
e com os meus colegas envolvidos no jogo da representação.
Enfim, descobri que não é suficiente trabalhar com o
intelecto e o conhecimento, se você não tem um corpo estimulado e sensibilizado
para exteriorizar o emocional do seu personagem. Em cena o ator precisa ser despudorado e
visceral para criar um ser de carne e ossos dotado de atitude, interioridade e
personalidade. Portanto, no seu cotidiano o ator precisa manter seu corpo em
treinamento constante. Buscar uma técnica corporal, um exercício (de
respiração, relaxamento, concentração, memória, um jogo teatral) para manter
seu corpo organicamente sensível, estimulado e motivado em energia para a
interpretação.
Eu comecei meu preparo corporal na dança. Na década de noventa, quando comecei a
frequentar aulas de flamenco. Tinha
consciência de que “a dança podia ser uma disciplina complementar para a
formação e preparação corporal de uma aspirante a atriz para a cena”. Sempre gostei de me expressar com o corpo e
trabalhar com música e mímica. Sabia que a dança também revela uma teatralidade
no movimento, no gesto, na expressão corporal do bailarino.
Estudar dança significava para mim a possibilidade de
expandir minha expressão corporal para o teatro, enriquecer minha expressão
gestual para atuar por meio do trabalho de postura, coordenação, flexibilidade,
fluidez. Então, mergulhei de cabeça nas possibilidades que a dança flamenca me
oferecia, para me preparar de corpo e alma para o teatro e para a profissão de
atriz.
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