Brecht e a humanização do homem


Comecei a ler sobre Bertholt Brecht na década de 80, por causa dos escritos teóricos e ensaios críticos de Fernando Peixoto. Na época atuava em teatro amador. Os atores e diretores dos grupos teatrais que eu frequentava falavam muito de seu método de trabalho. Da militância de sua produção artística. E o achavam um revolucionário. Com a curiosidade despertada sobre este dramaturgo, comecei a ler as suas peças,os romances,depois os contos e os poemas dele.Apaixonei-me por Brecht.Por seu teatro político e engajado. E por suas idéias.Apaixonei-me ainda mais pela obra do encenador e dramaturgo alemão nos anos 90 ao assistir as montagens brasileiras de grupos de teatro nacionais, nos quais imperava a criação coletiva. Foram montagens impecáveis inspiradas na estética e na temática proposta por Brecht. 

Entre as montagens brasileiras que assisti, as mais criativas e cativantes pertencem a grupos de teatro brasileiro nos quais ainda imperam o trabalho colaborativo. Vou citar as montagens que mais me impressionaram desde os anos 90 até hoje, e que conseguiram estéticamente projetar em cena o teatro dialético e o projeto ideológico de Brecht:

1996 - Baal o mito da carne dirigida por Marcelo Fonseca.

1997- Ensaio do latão, montagem realizada por um dos grupos mais importantes da última década, a Cia do latão. Assisti do mesmo grupo Equivocos colecionados (2004), o mercado do goso (2003), auto dos bons tratos (2002) no teatro cacilda becker, e visões siamesas no teatro sesc anchieta. Recentemente assisti do mesmo grupo a montagem de Santa Joana dos Matadouros no teatro joão caetano. MA-RA-VI-LHO-SA.

2005 - Me lembro também da montagem Um homem é um homem do grupo Galpão com a direção do talentoso ator e diretor Paulo José. Assisti no mesmo ano A boa alma de set suan no teatro sérgio cardoso, montagem de Marcelo Fonseca  na Cia teatro do incêndio. E prestigiei também o mesmo texto A boa alma de set suan montagem da companhia oberson, lourdes e os mexicanos.

2008 - Me lembro também da montagem Mãe coragem e seus filhos da Armazém companhia de teatro. No elenco estava a talentosa atriz Louise Cardoso.

Nota 1000 na minha opinião  foi mesmo a montagem “Mãe coragem e seus filhos” da Cia de arte degenerada, no teatro sesc anchieta com direção de Sergio Ferrara.  Nesta encenação estava a grande atriz Maria Alice Vergueiro. Uma atriz veterana e camaleônica, de grande versatilidade. Eu sou apaixonada pelo seu trabalho.

Independentemente das maneiras ou formas de montá-lo Brecht fascina, comove e incomoda. Não é por acaso que ele é considerado o principal escritor “antiburguês” do teatro europeu. E consequentemente foi o homem de teatro mais importante do século XX.  E eu acredito que ele será também neste século.  

E os argumentos  são óbvios.
Brecht ainda dialoga com o mundo do século 21? Sim.  Uma vez que, seja no nível da dramaturgia, seja no nível da representação, seja pelo seu projeto ideológico (de recuperação da humanidade, principalmente do oprimido), a matéria prima do teatro brechtiniano são as relações humanas, do homem com o homem e do homem com a sociedade. A temática da obra de Brecht tem muito a ver com as lutas politícas neste século, porque são críticas a todas as relações de dominação, poder e controle do homem. 
A grande inovação trazida pelo teatro de Bertholt Brecht foi ter rompido com a forma tradicional do teatro apoiado no naturalismo psicológico, na ilusão e na fantasia teatral. Ao elaborar um teatro pedagógico e dialético mais reflexivo e com enfoque na questão social, Brecht tornou o espectador mais lúcido e crítico diante dos acontecimentos históricos de seu tempo. Fez o público acreditar que podia transformar a realidade.E para que este projeto ideológico se concretizá-se, Brecht também enfatizou o significado artístico e social do trabalho do ator. Ele almejou um ator também lúcido e crítico diante dos acontecimentos históricos e sociais de seu tempo.Um ator com grande responsabilidade artística e social com a sua época, com a humanidade e a história de seu país, mas que também assumi-se  uma  posição moral e ideológica.

Brecht tem influenciado e muito o meu trabalho no campo das artes cênicas. Como ele eu não consigo separar produção artística de militância política. Não consigo acreditar que a função da arte seja apenas entreter, divertir e dissipar a monotonia do tempo.Eu acredito em uma arte, em um teatro capaz de divertir, mas também instruir durante a magia da representação. Acredito em um teatro capaz de mudar o comportamento de um povo.

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