Antes de desejar ser atriz, eu queria ser socióloga ou médica
veterinária. Mas eu descobri a “arte de atuar”, e atuar é e tem sido uma
experiência física e espiritual muito forte e necessária em minha vida. Não
acredito que seja necessário ser um artista para entender isto. Porque a arte
sempre faz o indivíduo ver a sí próprio, enxergar e refletir os pontos obscuros
da condição humana. A “expressão artistica” nos proporciona muitas vezes
experiências de transformação profundas. Assistimos a um filme, a uma peça de
teatro, lemos um romance e de repente, desejamos mudar ou fazer algo
significativo em nossas vidas ou no mundo.
Eu vejo e sinto o “cinema” como uma grande arte de
transformação que nos faz analizar, observar e discutir os comportamentos
humanos. E eu cresci acreditando nisto, por causa de “três fadas americanas”. E
foram estas três fadas que me fisgaram para a arte da representação e plantaram
dentro de mim a vontade de ser atriz.
Frank Capra
Eu sempre acreditei no lado espiritual da vida. Em uma força
superior que nos faz acreditar que estamos aqui por algum motivo. E que nos
move e nos orienta em uma determinada direção por alguma coisa maior do que nós
mesmos e que às vezes nem compreendemos o motivo. E os filmes de Frank Capra
sempre tiveram essa “aura de espiritualidade”. O dom, o poder mágico de fazer
as pessoas acreditarem que podiam mudar a sua vida a partir de dentro. Que
tendo fé, esperança e amor a jornada na terra seria menos dolorosa e difícil. É
isso o que ensinam seus personagens humanistas. Se não conseguimos aprender superar
as adversidades da vida, podemos ao menos tentar suportá-las e lidar com elas.Seus
filmes sempre me emocionaram. Sempre me
tocaram e me modificaram de alguma maneira “interiormente".Até hoje, sua
filmografia me faz acreditar no “espírito humano”. A predisposição que todos
temos para acreditar que a bondade, a felicidade, e as boas intenções que enchem o mundo está
nas pessoas. "Que somos nós que fazemos o mundo um lugar melhor e especial
para se viver". É acreditar na nossa capacidade de perseverança e
resistência frente ás dificuldades do mundo, para continuarmos a jornada,
independente dos resultados serem alcançados ou não. Os personagens dos filmes
de Frank Capra ensinam que se “as pessoas manterem retidão e firmeza de caráter
poderão vencer todos os obstáculos pela simples força de seus sentimentos e
valores”. É esta a mensagem de seus filmes.A felicidade neste mundo está nas
coisas pequenas, simples e tolas. Precisamos aprender a ver, sentir, compreender,
respeitar e tratar melhor nossos semelhantes e o mundo do qual fazemos parte.
Porque sem esta atitude e compreensão não faz sentido a nossa "curta jornada
de vida" neste planeta.Acredito que o cineasta Frank Capra é e continuará
sendo um grande diretor e realizador humanista, porque ele fazia filmes com a
intenção de enaltecer e mostrar o que o ser humano tinha de melhor como pessoa.
Eu amo seus filmes. E posso afirmar que eles mudaram o rumo de minha vida.
Dustin Hoffman
Na atualidade, eu admiro o trabalho de muitos artistas
talentosos. Atores e atrizes que atuando no palco, no cinema e na televisão, me
passam mensagens otimistas sobre a vida, sobre a natureza humana e sobre
espiritualidade neste mundo.Eu admiro, gosto, respeito e reverencio o trabalho
artístico de muita gente talentosa como cillian murthy, catalina sandino
moreno, jamil debbouze, vincent kartheiser, gabourey sidibe, terence howard,
arta dobroshi, fairuza balk, jeremie renier, audrey tautou, sandra corveloni,
alice braga, selton melo, caio blat, gabriela duarte, maria luisa mendonça,
ricardo darín, daniel bruhl, sami bouajila, marion cotillard, charlotte
gainsbourg, leonor watling, jamie bell,
emile hirsch, james franco, rachel
macadams, kristin scott thomas,stephen rea, shoreh aghdashloo, mélanie laurent,
mathieu kassovitz, josh lucas, naomi watts e guy pearce.Mas se eu tiver que
citar o nome de um ator cujo trabalho e conjunto da obra, cuja contribuição artística eu admiro demais,
e que sempre me inspirou e me influenciou na profissão de atriz, só posso citar
o de Dustin Hoffman.Dustin Hoffman sempre representou para mim o modelo de
artista, no qual um ator e uma atriz tem de se inspirar e se espelhar para se
tornar conhecido e respeitado no meio artístico. E também trabalhar com
disciplina, dedicação e motivação para crescer e ser bem sucedido.Um ator com
imenso alcance, que consegue com um simples olhar ou uma expressão corporal
passar naturalidade, honestidade e humanidade nos papéis que interpreta. Ele
tem o dom raro de disfarçar a arte da representação.Nunca vejo o ator, vejo
sempre o ser humano que ele interpreta.Acho que é porque ele deve pertencer a
esta classe de atores especiais que encaram cada papel, personagem como uma
jornada espiritual. Ele se prepara e se entrega a jornada de cada ser humano
que deve personificar. Ele não se esconde atrás do personagem. Seus personagens
são sempre tridimensionais porque ele
consegue em cada situação imprimir sua marca e versatilidade de ator de teatro.
Além da dimensão interna que ele dá aos seus personagens é incrível a
construção externa, o visual realista que ele constrói para os seus papéis.Eu
sou fã e grande admiradora de seu trabalho desde meados da década de 80. Por causa das reprises televisivas, assisti
algumas de suas atuações mais viscerais e marcantes em filmes como: a primeira
noite de um homem (1967), midnight cowboy - perdidos na noite (1969), pequeno grande homem (1970), papillon (1973),
lenny (1974), a maratona da morte (1976), liberdade condicional (1978), kramer
vs kramer (1979), tootsie (1982), morte do caixeiro viajante (1985), ishtar
(1987), rain man (1988), negócios em família (1989).
Hoje, graças a era do digital posso rever estes seus trabalhos
e atuações soberbas. E rever ainda
outras ótimas atuações em filmes como dick tracy (1990), billy bathgate (1991),
herói por acidente (1991), epidemia
(1995), american bufalo (1996), mera coincidência (1997), o quarto poder
(1997), esfera (1998), quero ser jonh malcovich (1999), matemática do diabo
(1999), joana darc (1999), vida que segue (2002), o juri (2003), huckbees
(2004), confidence o golpe perfeito (2004), em busca da terra do nunca (2005),
a cidade perdida (2005), perfume a história de um assassino (2006), mais estranho
que a ficção (2006), o amor não tira
férias (2006), a loja mágica de brinquedos (2007), tinha de ser você (2008), a
minha versão do amor (2010).Considero Dustin Hoffman uma referência artística.
Um ator, intérprete, artista completo e magnifico porque ele está sempre
desafiando os seus papéis e a si mesmo, e os explorando para buscar sua
essência e humanidade.
O cinema da década de 70
Eu amadureci tendo contato com o melhor cinema que foi em
minha opinião, o cinema realizado na década de 1970, e mais tarde o da década
de 1980. Foi uma época marcada por um cinema de muita criatividade e caráter
político. Foram realizados e produzidos filmes engajados e com fortes teores
éticos, políticos e morais. Os filmes realizados entre 1970 e 1979 tinham uma
atitude crítica que já vinha da década anterior. A década de 60 se caracterizou por ser uma
época de muita agitação, esperança e
inovação nas formas de se fazer luta política.
A cultura jovem dos anos 60 contestava e se opunha a tudo que limitava a
liberdade de expressão e manifestação das pessoas.A década de 1970 representou
uma redefinição de valores sociais, morais e culturais em todo o mundo. E o
cinema com os filmes que foram realizados entre 70 e 79, estimulou e fortaleceu
a noção de cidadania, liberdade de expressão, liberdade de criação, ética e
respeito no mundo.Uma geração de jovens cineastas que saiu das universidades de
cinema nos Estados Unidos, investiram toda a sua energia, know-how e
criatividade em um novo discurso de crítica social, que até aquele momento não
era permitido pela indústria de cinema. Sendo um cinema autoral, no qual os
diretores tinham o controle absoluto de sua obra, com liberdade artística
realizaram filmes com o compromisso de “retratar a realidade e dar respostas a
questões urgentes que incomodavam a sociedade”.
Eu me lembro de ter assistido filmes que colocavam questões delicadas
sobre a intolerância racial, o papel da mulher na sociedade, a alienação
social, racismo, paranóia, conformismo, inclusão social, luta de classes,
guerras, o medo e a violência urbana, as politícas do governo americano,
criminalidade e a máfia.A década de 70 mostrou que se fazia arte com a intenção
de se dizer algo, alguma coisa. Não era só o entretenimento que contava. Não
adiantava o trabalho ser só interessante e divertir. Também tinha de dizer e
ensinar alguma coisa. Mas sem forçar o público, deixar a audiência decidir como
se sentir a respeito do que era tratado nos filmes. Nada de doutrinação. Porque
isto não existe em arte. Ao nível da experiência coletiva, a década de 70 foi
muito importante, porque mostrou que era possível uma nova maneira de pensar,
um modo diferente de se relacionar com o mundo e as pessoas.
Vivemos em um mundo em que é difícil superar as pressões da
“sociedade materialista e de consumo”. Porque ela nos induz por meio da
publicidade, da moda e de comportamentos, a desejarmos e possuirmos muitas
vezes o que não necessitamos. É uma época de materialismo feroz, porque só há
dispêndio de energia em se ter, consumir, obter e usufruir tudo o que possa
satisfazer os caprichos de diversão, conforto e bem-estar do ser humano.Nesta
época conturbada é preciso equilibrar as forças materiais com as espirituais. E
as artes, principalmente “o cinema” com sua linguagem universal que fortalece a
cidadania e a conscientização social das pessoas, tem conseguido aglutinar
esforços para promover a tolerância, a paz e a solidariedade no mundo.
Por causa destes três motivos, os nomeio de “fadas americanas”
abracei definitivamente a “profissão de atriz”. Por acreditar que a “arte” tem
o poder de informar e instruir. Porque a arte reproduzindo a vida para ser
sentida, entendida e julgada em termos afetivos e psicológicos, pode mudar e
criar valores morais e culturais positivos na sociedade. A profissão de ator é
maravilhosa. Ela dá conhecimento, acrescenta vivências e maturidade. Se fora da
arte o ator vive a sua vida como uma pessoa comum, dentro da profissão
artística ele aceitou um novo modo de vida. E dentro deste novo modo de vida
ele não tem preconceitos e nem barreiras a vencer. Porque na arte ele tem
liberdade para tudo. “A arte é revolução”. É a possibilidade de mostrar ao
espectador que ele tem condições de modificar a sua condição humana e social.
EU ME LEMBRO E NÃO ESQUEÇO FILMES DESTA DÉCADA COMO:pretty
baby de louis malle (1978), uma mulher descasada de paul mazursky (1978), a
garota do adeus de hebert ross (1977), o pequeno grande homem de arthur penn
(1970), amargo pesadelo de jonh boorman (1972), a última sessão de cinema de
peter bogdanovich (1971), o poderoso chefão de francis ford coppola (1972), o
franco atirador de michael cimino (1978), liberdade condicional de ulu grosbard
(1978), sérpico de sidney lumet (1973), lenny de bob fosse (1974), norma rae de
martin ritt (1979), justiça para todos de norman jewison (1979), o expresso da
meia noite de allan park (1978),carie a estranha de brian de palma (1970), os
embalos de sábado à noite de jonh badham (1977), cabaret de bob fosse (1972),
um estranho no ninho de milos forman (1975), operação frança de willian
friedkin (1971), um golpe de mestre de george hoyhill (1973), rocky um lutador
de jonh g. avildsen (1976),
taxi driver de martin scorcese (1978), noivo nervoso noiva
neurótica de woody allen (1977), kramer vs kramer de robert benton (1979), um
dia de cão de sidney lumet (1975), american graffiti de george lucas (1973),
shampoo de hal ashby (1975), new york new york de martin scorcese (1977), a
maratona da morte de jonh schlesinger (1976), todos os homens do presidente de
alan j. pakula (1976), o exorcista de willian friedkin (1973), guerra nas
estrelas de george lucas (1977),
contatos imediatos do terceiro grau de steven spielberg (1977), tommy de ken russell (1975), hair de milos
forman (1979), nashville de robert altman (1975), apocalypse now de francis
ford coppola (1979), amargo regresso de hal ashby (1978), a trama de alan j. pakula (1974), laranja
mecânica de stanley kubrick (1971), um estranho no ninho de milos forman (1975), harold e maude de hal ashby (1971), a profecia de richard
donner (1976), all that jazz de bob
fosse (1979), alien o oitavo passageiro de ridley scott (1979), desejo de matar
de michael winner (1974), love history
de arthur hiller (1970),alice não mora mais aqui de martin scorcese (1974),
tubarão de steven spielberg (1975), noite de horror de jonh carpenter (1978),
grease nos tempos da brilhantina de
randall kleiser (1978), rede de intrigas de sidney lumet (1976), o
candidato de michael ritchie (1972), o grande gatsby de jack clayton (1974), julia de fred zinnemann
(1977), o campeão de franco zefirelli (1979), barrry lyndon de
stanley kubrick (1975), inferno na torre
de jonh guilhermin (1973), chinatown de
roman polanski (1974), nosso amor de ontem de sidney pollack (1973), muito além
do jardim de hal ashby (1975), lua de papel de peter bogdanovich (1973), aeroporto de jack smight (1974), superman de richard donner
(1978).
Conhecendo os anos 70:
“A meia luz. Cinema e sexualidade nos anos 70”. Paulo Menezes.
Editora 34. São Paulo. 2001.
“Almanaque anos 70”. Ana Maria Bahiana. Editora Ediouro. São
Paulo. 2006.
“Lo mejor del cine de los 70”. Jurguer Miller. Editora Taschen
do Brasil. 2006.
“Anos 70 – Enquanto corria a barca”. Lucy Dias. Editora SENAC.
São Paulo. 2003.
“O Legado dos anos 60-70”. Ligia Canongia. Editora Zahar. São
Paulo. 2005.
“O cinema brasileiro nos anos 70”. Guido Bilharinho. Editora
ITC. São Paulo. 2007.
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