Na escola de teatro, como na época do teatro amador e semiprofissional, tive contato com a maioria dos “sistemas ou métodos de atuação” consagrados no mundo inteiro. Conheço os principais métodos de interpretação para treinamento do ator como o de decroux, dullin, meyerhold, delsarte, barba, piscator, craig, appia. No curso teatral, experimentei em muitos exercícios, as principais técnicas de atuação como a de artaud, brecht, grotowski, stanislavski, wilson, brook, michael tchekhov, meisner.Mas se me perguntarem qual é a melhor e mais eficaz técnica para preparar um ator para a cena, eu não saberia responder. Todas ajudam de alguma maneira o ator a alcançar uma verdade cênica na atuação, mas confesso que não utilizo nenhuma destas técnicas teatrais no meu trabalho. Posso apenas afirmar que tenho “conceitos e princípios sobre atuação” nos quais acredito. Porque os adquiri por estudo, experiência e prática teatral, para me estimular e motivar para a criação de um personagem. Sou uma atriz muito intuitiva. Gosto de "improvisar" e trabalhar muito com imagens e sugestões do que leio e observo na vida real para estimular e trabalhar a imaginação para começar a criar.
Um Estado de transe
Eu vejo e sinto o trabalho do ator como um “estado em transe”.
Quando o ator está atuando, depois de se preparar e estudar seu papel, ele fica
de tal maneira absorvido pela personalidade e motivações de seu personagem, que
toda sua energia psíquica e emocional é intensificada e direcionada para o
momento da interpretação, de tal modo que parece esquecer-se dele mesmo.Neste
“estado de transe entre ator e personagem”, não há tensão, resistências físicas
ou bloqueios por parte do ator para mostrar o mais íntimo de seu ser, do seu
personagem. O ator se entrega instintivamente, espontaneamente, visceralmente
ao momento. O ator se despoja, se desnuda totalmente para que o outro ser que o
habita na atuação, possa aparecer. Eu acredito que para o ator transmitir a
vida interior de seu personagem, ele precisa primeiro preparar seu corpo
fisicamente, sensorialmente, para que ele se sensibilize com essa vida interior
que vai representar. Então é preciso ter uma técnica que o ajude neste preparo
físico e emocional.E é muito importante também, se conhecer como pessoa, como o
ser humano que é, porque o personagem que o ator vai interpretar apresenta
muitas vezes caracteristicas humanas (físicas, temperamento, convicções,
interesses, afeições) que são diferentes das suas. O ator precisa romper
barreiras de comportamento, valores e princípios morais e éticos que já estão
enraizados em sua personalidade e maneira de enfrentar o mundo, para que possa
se transformar no outro.
UM PROCESSO
Desde julho de 2009, quando me iniciei nos “cursos de atuação
para cinema e televisão” , tenho percebido que há uma grande diferença entre
atuar no palco e em frente a uma câmera. Compreendi que a principal diferença
está no “espaço físico” onde o ator atua e se movimenta, e em como a sua
energia corporal, emocional e psicológica é estimulada, distribuída e direcionada dentro deste espaço/campo de atuação, quando
ele se relaciona e entra em comunhão com
os demais elementos que estão presentes na cena.
Quando “os monólogos de meu videobook” foram realizados, eu já
tinha me iniciado na técnica de interpretação para a câmera. E esclareço que
não foi nada fácil a abordagem da personagem dentro da linguagem de cinema
e televisão. Porque se no espaço teatral
o ator explora mais a oratória e o exagero corporal para se expressar e se comunicar
com o público, no espaço cinematográfico ou um set de televisão, sua
gesticulação e movimentação obedecem a uma maior contenção e controle corporal.
O que importa é a delicadeza, a sutileza de sua gestualidade e emoções. Minha
abordagem é na base da intuição, imaginação e estímulo. Gosto de partir de
“elementos humanos” que me são sugeridos pelo texto, fotos, imagens. O que é
discutido e orientado pelo diretor, o que pode ser descoberto nos ensaios ou
mesmo no momento da atuação com o parceiro de cena.
Também gosto de pesquisar, realizar leituras sobre o tema/assunto, e se possível realizar um laboratório teatral. Buscar a experiência concreta na vida real para compreender a situação dramática e o papel. Depois eu avalio e seleciono do material pesquisado e experimentado o que é essencial e pertinente utilizar no personagem que me cabe interpretar.Portanto, eu acredito em “um processo” exigente por parte do ator para sua preparação.
No “monólogo da ex-viciada” realizei uma pesquisa sobre o tema
das drogas e sobre o universo dos dependentes químicos. Li matérias sobre o
assunto. Vi fotos para criar uma aparência condizente com a situação. Procurei
entender o que as drogas causam no organismo de uma pessoa. Assisti depoimentos
de pessoas que eram viciadas e que estavam em tratamento para se libertarem do
vício.
Assisti alguns filmes (eu cristiane f drogada e prostítuida, drugstore cowboy, trainspotting, traffic, réquien para um sonho, diário de um adolescente, e coisas que perdemos pelo caminho) para entender o que leva uma pessoa para este mundo e a faz acabar com sua vida. E descobri muitas outras coisas interessantes que me inspiraram depois na hora de criar e atuar. Uma imagem que muito me impressionou está em uma cena do filme "eu cristiane f drogada e prostítuida".
Meus professores de interpretação sempre me alertaram para o
aspecto emocional da atuação. Sempre me lembraram que o ator nunca deve forçar
a emoção. Um sentimento. Porque se ele
compreender o que está acontecendo ao seu personagem, entender a cena, e as
motivações de seu papel, será bem sucedido na interpretação e terá conseguido
revelar sua personagem. São estes os conhecimentos que possuo sobre
atuação. Espero de alguma maneira ter
acrescentado algo significativo sobre o tema.
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